Você também fica olhando pro caminho do lado?
- laura zago
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Como a comparação virou o ruído de fundo da nossa vida e por que é tão difícil desligar.
Existe um caminho paralelo ao seu. Ele é asfaltado, bonito, cheio de paisagens que você nunca para de olhar. O seu, por outro lado, está cheio de buracos.
Você tenta chegar nesse outro caminho. Tenta de novo. E de novo. Mas ele nunca se aproxima só fica ali, na sua frente, perfeito e inalcançável. E quanto mais você tenta, mais exausto fica. Mais convicto de que tem algo errado com você.
Esse é o movimento da comparação. E ele está acontecendo com você agora mesmo, provavelmente sem que você perceba.
A comparação em si não é o problema
Antes de entrar no peso emocional disso tudo, vale entender do que estamos falando de verdade.
A comparação faz parte do nosso processo de linguagem e de pensamento. Fazemos isso o tempo todo, por exemplo: o livro físico é melhor que o Kindle, o Kindle é mais prático que o livro físico. Essa capacidade de comparar nos ajuda a estabelecer relações, categorizar experiências e auxilia no nosso processo de aprendizagem. Em outras palavras: a comparação não é um fenômeno que deva ser evitado. Ela já faz parte de como entendemos e organizamos a vida.
A grande questão não é a comparação em si, é quando ela começa a trazer sofrimento.
O que mudou com a internet
A comparação sempre existiu. Mas antes tínhamos acesso limitado à vida das pessoas. Nos comparávamos com os amigos próximos, os vizinhos, os colegas de trabalho. O universo da influência era pequeno.
Hoje, esse universo é infinito.
Somos expostos diariamente à influencer que viaja todo mês, à empreendedora de 25 anos que construiu um negócio milionário e agora vende a ideia de que todos podemos chegar lá, à amiga de faculdade que virou executiva de sucesso e ainda é uma mãe exemplar, tudo isso ao mesmo tempo, no mesmo feed, no mesmo ideal de vida perfeito.
Se mergulharmos mais fundo, encontramos camadas que só amplificam esse processo: a cultura da ostentação, a idealização de vidas "perfeitas" nas redes, a pressão constante pela felicidade performática. É desse contexto que partimos. É nele que vivemos.
O canto da sereia
É aí que os pensamentos de comparação encontram terreno fértil. Eles deixam de ser um processo de linguagem e passam a sustentar vidas, ou ideais de vida, que não são os nossos.
Eu chamo esse tipo de pensamento de "o canto da sereia". E o nome não é por acaso.
Assim como na mitologia, esses pensamentos são irresistíveis. Eles aparecem com uma força hipnótica, nos prendem em enredos altamente elaborados, e constroem histórias em que invariavelmente saímos perdendo. Nunca somos bons o suficiente, nunca somos inteligentes, bonitos, ou realizados o bastante. Estamos sempre um degrau abaixo na escala da comparação. E o mais cruel é que, quanto mais ouvimos esse canto, mais nos afastamos do único caminho que realmente importa: o nosso.
Reconhecer o canto da sereia já é um primeiro passo enorme. Porque você não pode agir a partir do que não consegue ver.
Então, da próxima vez que um pensamento de comparação aparecer, tente fazer uma coisa simples: nomeie ele. Não para se punir, mas só para observar. "Ah, aí está você de novo." Esse pequeno gesto cria uma distância entre você e o pensamento, e sejamos sinceras distância é liberdade.
O caminho asfaltado vai continuar existindo. Ele não some. Mas com o tempo, você começa a perceber que ele foi construído para outra pessoa, com outra história, outro corpo, outro ponto de partida. Ele não é seu e está tudo bem reconhecer isso.
Lembre-se que só o seu caminho te leva a um lugar real, a um lugar que realmente faz sentido para você.
Se você se reconheceu em algum momento desse texto, talvez seja hora de explorar isso mais a fundo. A terapia é um espaço para olhar pro seu próprio caminho, sem julgamento e sem pressa.
Laura da Silva Zago
Psicóloga
CRP 06/178820


